quinta-feira, 28 de setembro de 2017

sexo de ler

Mesmo que eu quisesse descrever anatomicamente um sexo de ler, não seria capaz. É sem ossos e sem forma. Rimbaud não estava a imaginar. 
Nenhum de nós estava a imaginar. Estávamos a conjecturar fisicamente no escuro. As imagens sabem que têm de caminhar para nós com o seu sexo de ler. Sem ele, são propriamente sem texto. Sabem? Sim, sabem. Utilizamos pouco o nosso sexo próprio para fazer. Utilizamo-lo, sobretudo, para sentir e sondar. Como crianças em perpétuo crescimento, nunca estáveis numa única imagem. O que sentimos fisicamente com o sexo que temos, o que as imagens vêm procurar em nós, não é o sexo que praticamos,

é a vibração pelo vivo e pelo novo. Chamei-lhe fulgor porque é assim que sinto. Musil diria diferentemente. Ele fala em seda deslizando-se nos bordos de uma cama. Rimbaud adorava (e temia) ver raparigas entreabertas. Rilke excita-se pelas transparências, embora oscilasse entre véus e acessos brutais de sexo puro. Dickinson não escrevia se não estivesse apaixonada. Paixões à distância e concentradas. Pouco importa. Apenas importa a importância que lhe damos. Se fazemos disso uma conjectura irrevogável da nossa arte de escrever. Progressivamente, sentimos um texto. Isso, a que chamei Esse, a brotar de imagens, de cenas, de paisagens. E isso é mundo, é íntimo, é real, é rua. A nossa história do universo.


Llansol
Onde vais, drama-poesia?, p. 33.

Sem comentários:

Enviar um comentário