A escrita que eu vejo faz renascer estes e não outros, sem que eu saiba porquê. Se aparecerem outros escritores, aparecerão, de certeza, outras fontes de nascimento, outras figuras. É bem provável que se altere a necessidade. Seja como for, eu não invento a escrita, como eles também não a inventarão. Eu re-nasço dela e, escrevendo, re-sisto, re-existo, na minha forma singular de existência. Eu constato que sou assim, que não me quero separar do facto de ser um ser por vir, e que empresto a minha voz a esta espécie (que é, no fundo, a minha) de vindouros por mansa insistência. Há muito que estamos nascendo.
Escrevendo, só sei dizer-lhe que acabaremos por nascer. Que, sem nós, o mundo não apenas ficará incompleto, como não será a arte que poderá ser, mesmo se não soubermos se terá energia bastante para ser tal. O inerte perderá, com a escrita, o cultivo a que se habituou da sua própria incompletude.
Llansol
Onde vais, drama-poesia?, p. 211.
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