Mesmo que eu quisesse descrever anatomicamente
um sexo de ler, não seria capaz. É sem ossos e sem forma. Rimbaud não estava a imaginar.
Nenhum de nós estava a imaginar. Estávamos a conjecturar fisicamente no escuro.
As imagens sabem que têm de caminhar para nós com o seu sexo de ler. Sem ele,
são propriamente sem texto. Sabem? Sim, sabem. Utilizamos pouco o nosso sexo
próprio para fazer. Utilizamo-lo, sobretudo, para sentir e sondar. Como
crianças em perpétuo crescimento, nunca estáveis numa única imagem. O que
sentimos fisicamente com o sexo que temos, o que as imagens vêm procurar em
nós, não é o sexo que praticamos,
é a vibração pelo vivo e pelo novo. Chamei-lhe fulgor porque é assim
que sinto. Musil diria diferentemente. Ele fala em seda deslizando-se nos
bordos de uma cama. Rimbaud adorava (e temia) ver raparigas entreabertas. Rilke
excita-se pelas transparências, embora oscilasse entre véus e acessos brutais
de sexo puro. Dickinson não escrevia se não estivesse apaixonada. Paixões à
distância e concentradas. Pouco importa. Apenas importa a importância que lhe
damos. Se fazemos disso uma conjectura irrevogável da nossa arte de escrever.
Progressivamente, sentimos um texto. Isso, a que chamei Esse, a brotar de
imagens, de cenas, de paisagens. E isso é mundo, é íntimo, é real, é rua. A
nossa história do universo.
Llansol
Onde vais, drama-poesia?, p. 33.


